O pesadelo romântico: O que Wuthering Heights nos diz sobre narrativas, o papel da mulher e o feminicídio
O que Wuthering Heights nos diz sobre narrativas, o papel da mulher e o feminicídio em 2026
Viviane Arêas
1/10/20263 min read


Eu li o livro de Emily Brontë bem novinha, na época do hype da música "Wuthering Heights", da Kate Bush, regravada pelo meu ídolo de adolescência, André Matos. Ontem, resolvi assistir ao filme e fiquei mais uma noite sem dormir. A história, vendida mundialmente como um grande romance, é um pesadelo em vários sentidos.
De forma bastante sintética, Heathcliff é um tirano extremamente cruel que passa a história inteira abusando física e psicologicamente daqueles que estão submetidos a ele. Cathy, a "mocinha", é pintada como alguém de personalidade complexa e selvagem: passional, obstinada e, por vezes, egoísta e manipuladora.
Heathcliff, por sua vez, é um homem monstruoso, descrito em uma narrativa que, a todo momento, tenta humanizá-lo e absolvê-lo de suas maldades. O foco recai sobre o menino abandonado que é humilhado na infância, chamado de gypsy (cigano) a todo momento — o que, à época da história, era um xingamento pesado. Há cenas em que ele espanca uma das mulheres que se envolve com ele, mas as lembranças do seu passado sofrido são colocadas na narrativa de modo a fazer com que o leitor ou espectador sinta pena do protagonista.
Mas o que isso tem a ver com feminicídio?
Bom, estamos em 2026. Há três anos — em 08/03/2023 —, o STF se pronunciou e decretou formalmente como inconstitucional o argumento de "legítima defesa da honra". Isso quer dizer que, até bem pouco tempo, um assassino poderia ser absolvido de um crime de feminicídio com essa pachorra (!) de argumento. Sim, muitos juízes absolveram criminosos hediondos sob essa tese, no mínimo, ridícula.
Ao longo da história, nós, mulheres, fomos colocadas no lugar daquela que é "passional", "manipuladora", "histérica", "vingativa". E sim, isso reflete na forma como o judiciário nos enxerga.
Quantas mulheres precisaram de medidas protetivas contra seus agressores e tiveram seus processos arquivados? Provas invalidadas? Testemunhas sequer ouvidas? Quantas de nós, ao denunciar abusos cometidos contra nossos filhos — aos quais temos o dever constitucional de proteger —, corremos o risco de ser lidas como "alienadoras" e perder nossos bens mais preciosos para esses predadores nojentos?
A literatura e a arte refletem a sociedade. Nós, mulheres, somos lidas como a Cathy quando buscamos nossos direitos: somos vistas como selvagens, manipuladoras ou "nada frágeis" — rótulos usados para justificar o injustificável, como receber agressões físicas. Os homens, em contrapartida, têm o álibi do "histórico difícil", do homem que, apesar de violento, "ama" a vítima de suas violências.
Eles cometem atrocidades. São agressores, ped0fil0s, abusadores que, diante de uma narrativa covarde que tenta humanizá-los, saem impunes. Heathcliff era tão doentio que, mesmo após a morte de Cathy, deseja que ela nunca encontre a paz; deseja que seu espírito vague pela terra e o atormente até a loucura.
Hoje, advogados(as), promotores(as), defensores(as) e juízes(as) correm o risco de sofrer esse tipo de tormenta, que não será causada por um "espírito sofredor", mas por suas próprias consciências — se elas existirem. A tormenta virá quando essas pessoas se derem conta de que, ao defender esses tipos de criminosos utilizando de tais narrativas, em suas mãos também haverá o sangue das vítimas. O judiciário, misógino, também mata.
Você pode me dizer: "Não faça julgamento moral, Viviane! Eles apenas fazem o trabalho deles."
Mas será? Heathcliff escolhe ser um tremendo babaca - desculpe, não encontro palavras polidas para descrevê-lo - diante de sua história. Sim, ele escolhe. O que nos torna sujeitos é aquilo que fazemos da nossa história. Nossas escolhas dizem muito mais sobre nós do que qualquer outra coisa. Dentro de nós, há algo inegociável, algo que não vendemos, que não topamos. Isso somos nós.
Esse é o primeiro texto deste blog. Ele não foi escrito para ser um texto "técnico", não desta vez. Ele foi escrito por uma profissional que, antes de tudo, é mulher, é mãe. Uma mulher que não se sente segura em um país onde os índices de feminicídio são alarmantes; em um país que prefere humanizar abusadores e agressores - sejam eles brasileiros ou estrangeiros - a dar voz e proteção as suas mulheres. E por que escrever sobre isso aqui, numa página profissional? Bem, a psicologia é uma ciência que lida com o humano. Negligenciar sofrimentos, abusos, injustiças é um atestado claro de incapacidade para trabalhar na área.
Esse é meu inegociável. Qual é o seu?
